Medicina ideológica e a inversão de valores

Por Wagner Vargas para o Jornal Imprensa de 11/05

Nós últimos dias, o Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, anunciou sua articulação com o chanceler de Cuba, Bruno Rodriguez, que visa trazer ao Brasil 6.000 médicos cubanos para trabalhar no interior do País, região que sofre certa escassez desses profissionais. O anúncio veio acompanhado de declaração do Conselho Federal de Medicina (CFM) — classificada por alguns de “virulenta” e “corporativista” — manifestando-se contra o tal intercâmbio profissional entre os dois países, já que 89% dos médicos cubanos, que se inscreveram para revalidar seus diplomas no Brasil, não atingiram a pontuação mínima exigida, segundo o INEP, ou seja, apenas 20 dos 182 profissionais inscritos no exame em 2012, uma realidade lastimável.

O maior desafio parece ser localizar o que será mais interessante para o nosso país, do ponto de vista do interesse público. Será que podemos dizer que a medicina é uma profissão “elitista” no Brasil?

Não é errado afirmar que sim, já que o Brasil forma 13 mil médicos por ano, advindos das 200 faculdades de medicina do Brasil (maioria de faculdade particulares) e há certa concentração desses médicos no Estado de São Paulo, até mesmo nos intercâmbios em que 42% dos 7.000 médicos estrangeiros, que conseguiram revalidar seus diplomas no Brasil, nos últimos dez anos, estão no neste Estado.  O suposto cenário “elitista” na medicina não ocorre porque governantes de direita, “capitalistas malvados”, conspiraram juntos, visando privar a população pobre ao acesso a tais serviços — Tal ideologia holista da esquerda, que propõe a absurda luta de classes, é tão anacrônica, quanto inconsistente e a passionalidade para estes é muito mais importante do que a realidade.

A “escassez” na formação de médicos se deve a falta de gestão adequada na educação, vinda desde sua base, atrelada a alta exigência técnica que precisa ser exigida por profissionais desta área, afinal não se entrega a vida a “qualquer um”. Felizmente, a qualificação não leva em conta a história do profissional, se ele é pobre ou rico, brasileiro, cubano ou norte americano e sim se ele está apto para o ofício. Logo, àqueles que lutam pela “democratização” da formação de médicos deveriam exigir aumento de infraestrutura e qualidade educacionais e não a baixa de parâmetros de avaliação técnica desses profissionais, a fim do preenchimento dos números apenas.

Apesar da análise sumária, é evidente que existem questões de mercado que atraem os interesses desses profissionais para determinadas regiões, como ocorre em qualquer profissão e não há como negar que existe carência desses serviços em certas localidades, no interior do País. Neste sentido, o intercâmbio poderia ser algo positivo já que Cuba, com apenas 13 milhões de habitantes, forma 11 mil médicos ano. A questão é que além da incerteza quanto a qualificação técnica desses médicos, haveria a necessidade de se revalidar automaticamente esses diplomas, o que é também ilegal.

Há de se reconhecer, também, que, a despeito dos dados divulgados por regimes ditatoriais não serem nada confiáveis, a medicina preventiva da ilha caribenha apresentou crescimento significativo em alguns índices, como mortalidade infantil (mais baixa da América Latina, ainda inferior a EUA e Canadá) se comparado aos anos anteriores. No entanto, é óbvio que esse índice não pode ser o único referencial para afirmar excelência nesse âmbito, haja vista que a maioria dos médicos de lá não conseguiram sequer ser aprovados aqui.

Intercâmbios, tanto profissionais, quanto àqueles de conhecimento entre países, são essenciais e obtiveram impacto significativo com o advento da globalização e de parcerias em formatos de blocos econômicos, responsáveis pela abertura de mercados, do livre comércio e da livre circulação de serviços e de pessoas entre os países. No entanto, é claro que, além das questões de viabilidade técnica, o elemento ideologia ou certa identidade de pensamento entre os governantes que firmam esses tratados internacionais é algo comum e também natural que assim sejam. O problema é quando  o campo ideológico do governante é um referencial mais forte do que as questões técnicas envolvidas em algum acordo, o que pode punir, de forma crassa, a população desses países.

Felizmente, o CFM não enxerga apenas a questão quantitativa, existem parâmetros de qualidade que são necessários para quem atua nesta área. A prova de revalidação do diploma pode, sim, ser questionada, mas a realidade é que existem órgãos e pessoas responsáveis e competentes para avaliar se os profissionais que se formaram fora do país— essa regra não vale só para Cuba— têm condições técnicas de atuar aqui no Brasil e tenha certeza, leitor, que esses profissionais qualificados para tal avaliação não estão trabalhando no Ministério de Relações Exteriores.

Questionar as normas?

Muito bom, contanto que se apresente uma contraproposta qualitativa para a mudança das mesmas. O mercado está com escassez de engenheiros também, será que o problema está nos padrões de avaliação? Vamos acabar com o Crea e baixar o padrão de avaliação, assim conseguiremos preencher o mercado, que tal?

Se os cubanos são excelência, mesmo, em medicina, como gosta de se gabar a esquerda, com certeza, terão condições de revalidar seus diplomas. Agora, se não estão conseguindo fazê-lo, algo pode estar errado e não seria muito sensato pensar que o erro é do Conselho de Medicina, o qual compete a função de fazer esta fiscalização. Pensar diferente disso seria o mesmo que adotar a lógica do marido que, ao pegar sua esposa traindo-o no sofá, prefere a troca do móvel ao divórcio. Se não abrirmos nossos olhos hoje e refletirmos de maneira objetiva, amanhã poderemos acordar numa Argentina ou até mesmo na Venezuela, em que até nosso direito de reflexão nos será tolhido.

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About Wagner

Jornalista, trabalha com assessoria de imprensa e comunicação estratégica; escreve artigos de sobre política econômica para o Jornal Imprensa e é articulista jovem do site do Instituto Millenium. Jornal Imprensa: http://jornalimprensa.com.br/ Instituto Millenium: http://www.imil.org.br/ facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002044718065 E-mail: wagneraugusto.vargas@gmail.com

Posted on Maio 11, 2013, in Uncategorized. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Caraca… seu artigo esta ótimo! Só vejo um adendo em relação a “elitização” da medicina brasileira. O dados apresentados são muito bons, mas de fato, na pratica de uma pessoa que está na área médica desde 2006 e na educação desde 2011, ela é “elitizada” sim, e isso cabe algumas reflexões. 1) não desmerecendo as capacidades dos estudantes, mas quem tem melhores oportunidades e condições de passar em vestibulares de medicina publica no país, estudantes oriundos de um berço alienado dessa área, que muitas vezes tem sua educação deficiente desdo fundamental ou o contrario? (pois eu nunca vi, e sei q são ainda poucos, os médicos de origem pobre ou “classe média baixa” – na verdade, conheço uma!) 2) quem são os que tem subsidio/condição de bancar um curso de medicina particular (mensalidade, materiais, tempo…) que beira de 2.790,00 a 4.919,00, sendo que muitos, quiça todos, são em período integra/?
    De fato essas condições estão engatinhando à extinção, a luz de recursos como PROUNI, ENEM e FIES, mas isso logicamente não mudará muito essa realidade. Isso se explicita pelo modelo econômico vigente, onde um dos pontos é eliminar a concorrência… ou estou errado?
    Sendo assim! É notável a necessidade de um serviço publico precário, pois é simples percebermos que se tal fosse de igual ou pouco inferior ao serviço particular, a concorrência seria “desleal” e não lucrativa. Exemplo disso são as escolas/educação com a desvalorização e o desrespeito para com os profissionais (falta de qualificação nas universidade e nas condições de trabalho), mudança de valores educacionais (deixou-se de lado o “ser” para o “ter”a fim de suprir o alavancar econômico, necessidade da mão de obra “especializado” do mercado) e as altas cobranças das provas, que levam todos os que querem ou precisão “passar na prova” às salas de “cursinhos”, logicamente particulares. Outro exemplo são os convenio, que dispensam comentários!
    Não creio em “teoria da conspiração” ou coisas desse tipo, mas é ingenuidade acreditar que não há no Congresso Nacional pessoas físicas publicas que ao mesmo tempo são jurídicas particulares, e como tal, visão lucro e logicamente juntam-se a fim de sanar seus interesses. Logo, há sim uma “direita” conservadora, que muitas vezes se mascará de “esquerda”, ou simplesmente muda de lado/interesses no titulo, mas não na vivencia.

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