O “golpe” no Paraguai e a manca diplomacia brasileira.

Por Wagner Vargas para o Jornal Imprensa de 14/07/2012

A destituição do bispo Fernando Lugo da presidência paraguaia foi classificada como golpe de estado por alguns “analistas”, dado o tempo recorde de 36 horas em que o atual presidente, Frederico Franco, assumiu o poder nos últimos dias. Esse evento gerou forte oposição nos governantes ditos de esquerda da América Latina como Venezuela, Argentina, Equador, fazendo o governo brasileiro pegar carona nessa onda que, ditada por Hugo Chávez, veio acompanhada da exclusão temporária do Paraguai da Unasul e do Mercosul até agosto de 2013, data prevista para as novas eleições. O mais curioso é que, além de afastar o país desses blocos econômicos, os membros permitiram que Lugo participasse da cúpula das próximas reuniões e aprovaram, também, a entrada da Venezuela no Mercosul, que era antes contestada, justamente, pelo Paraguai. Para Chávez e Kirchner, o ocorrido no Paraguai foi um golpe à democracia em que o povo paraguaio foi gravemente desrespeitado, o que não é bem assim.

Antes de qualquer argumento, vale citar que é natural sentirmos náuseas ou algum tipo de disenteria quando se ouve alguém como Hugo Chávez ou Cristina Kirchner falar em nome da democracia. Imagine, o leitor, se essas figuras autoritárias, que censuram a mídia e perseguem seus opositores, agora forem referência de modelo democrático? Seguindo essa “lógica” poderíamos empossar Fernandinho beira-mar como ministro da justiça.

É essencial registrar, ainda, que não houve nenhum resquício de golpe nessa troca de poder ocorrida no Paraguai, uma vez que não existiu inobservância constitucional ou uso da força física ao destituir Lugo. A carta magna do país foi seguida à risca, já que a mesma prevê impeachment presidencial na sexta seção, no artigo constitucional 225, em casos de mal desempenho de funções ou envolvimento em delitos cometidos durante o exercício do cargo ou fora dele, cabendo à câmara dos deputados impetrar acusação e ao senado julgá-la, ambos corroborados por aprovação de dois terços da corte, seguida da posse do vice-presidente. Foi exatamente o que ocorreu, os deputados formularam uma acusação pública que foi aprovada por 76 dos 77 componentes da casa, acatada pelo senado por 39 votos a 4. Por conta da velocidade que tudo isso ocorreu até se pode questionar se essa norma é a mais adequada para o país, já que ela não expõe mais detalhes sobre o processo de impeachment. Porém, é falsa a alegação de golpe ou ação não democrática apenas agora, já que o documento já estava vigente durante a gestão anterior.

Apesar da amnésia conceitual sofrida por alguns líderes da América Latina, a verdade é que Lugo não tinha mais força política para governar, graças a uma série de equívocos que tiveram seu estopim quando ele resolveu promover um oficial envolvido no massacre— resultante da morte de 11 civis e 6 oficiais da polícia— e por nomear um ministro das relações interiores que, de tão absurda, a ação não recebeu o aval nem mesmo dos assessores próximos a Lugo. Os países ditos de esquerda da América Latina, como de costume, têm jogado baixo, apelando com mentiras populistas. O objetivo de Chávez e companhia é mascarar seus interesses, meramente ideológicos de dominar e controlar ao máximo os países do cone sul e o Brasil, de forma equivocada, entrou de gaiato nessa história.

A intromissão externa da Venezuela envolveu, inclusive, embargos econômicos ao Paraguai, no que diz respeito ao fornecimento de petróleo a fim de forçar alguma mudança na política interna do país, ação pouco coerente para um líder que, até ontem, criticava o imperialismo norte americano e as sanções econômicas que os Estados Unidos impuseram a Cuba. Quer dizer, então, que imperialismo de “esquerda” pode?

Além de não haver presença militar no suposto golpe paraguaio, não há registro de militares nas ruas e apenas 5 mil manifestantes — absoluta minoria—,  partidários de Lugo, demonstraram-se contrários  ao novo governante. Também não existiu censura à mídia, ao contrário, a única rede de TV que resolveu ser favorável a Lugo teve sua decisão respeitada, optando por não televisionar a posse de Franco. Detalhe, essa rede é pública, ou seja, o atual presidente poderia ter interferido e, provavelmente, nem saberíamos de nada até hoje. Outro ponto é que a própria suprema corte paraguaia rejeitou a ação de inconstitucionalidade impetrada por Lugo, garantindo, assim, o mandato de Franco até agosto de 2013. Isso quer dizer que imprensa, empresários, a Igreja, a constituição, os produtores rurais — Lugo não cumpriu suas reformas prometidas —e até mesmo das lideranças políticas apoiaram a mudança, já que Lugo estava tomando medidas que desagradavam o partido liberal, agremiação que o ajudou a chegar no poder.

É compreensível o potencial econômico venezuelano, dado a gigantesca reserva bruta de petróleo existente no país, no entanto, isso não é justificativa para que tenhamos de abaixar a cabeça ou concordar com ingerências políticas em outros países. Uma nação deve ser soberana e independente, e , se um povo, um governo e sua constituição concordam em determinada questão interna que foi estabelecida sem o uso da força bruta, quem somos nós, dona Dilma, para dizermos algo? Essa é mais um episódio da novela brasileira do: “vamos parar de olhar a sujeira na casa do vizinho e limpar primeiro a nossa” essa que, por sinal, não está nada limpa.

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About Wagner

Jornalista, trabalha com assessoria de imprensa e comunicação estratégica; escreve artigos de sobre política econômica para o Jornal Imprensa e é articulista jovem do site do Instituto Millenium. Jornal Imprensa: http://jornalimprensa.com.br/ Instituto Millenium: http://www.imil.org.br/ facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002044718065 E-mail: wagneraugusto.vargas@gmail.com

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