“Uma união monetária, para durar, precisa de uma união fiscal e política”

Entrevista ping-Pong com Rodrigo Constantino.

“O maior equívoco talvez tenha sido a composição dos países membros, aceitando-se a adesão de países muito díspares”

A crise do Euro vem trazendo à tona discussões sobre o papel do estado na economia, o que tem feito economistas de diversas escolas entrarem num verdadeiro embate ideológico ao definirem a melhor saída para os problemas fiscais. O economista e escritor carioca, Rodrigo Constantino, tem criticado abertamente as medidas apontadas pela maior parte dos economistas que, hoje em dia, tendem a aceitar mais gastos do estado nos países endividados, afirmando que isso os vai tirar da crise. Além de atuar no mercado financeiro desde 1997, Contantino é colunista dos jornais “Valor Econômico”, “O Globo” e da revista “Voto” e é formado pela PUC-RJ, com MBA em finanças pelo IBMEC. O entrevistado também é autor de 6 livros (entre eles “Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT”; “Economia do Indivíduo: O Legado da Escola Austríaca” e o mais recente chamado “Liberal com Orgulho”) e sempre participa de debates e fóruns, principalmente, aqueles promovidos pelo Instituto Millenium, do qual ele é membro fundador.

A crise fiscal na Europa é claramente um cenário que coloca em xeque o modelo keynesiano de Welfare State, então idolatrado por políticos. No entanto, no “mainstream” econômico e na mídia, em geral, ainda existe um discurso quase unânime sobre a intervenção estatal para “salvar as crises”. Por que, na sua visão, esse pensamento estatizante ainda é tão forte em termos de difusão?

Quando o médico erra no diagnóstico, ele com certeza vai errar na prescrição do remédio. O problema é que o mainstream adota uma teoria econômica não condizente com os fatos da realidade. Uma vez que não interpretam corretamente as principais causas que levaram ao fenômeno da crise, insistem em “soluções” ineficientes, ou que agravam o problema. Pretendem curar a leucemia com o uso de sanguessugas, ou seja, pensam que se há “falta de demanda” e muito endividamento, então é preciso estimular a demanda através do governo e injetar mais dívida no sistema. Além disso, há o fator da natureza política da democracia, que leva o foco para o curto prazo, para as próximas eleições. Nesse caso, mesmo se as autoridades souberam identificar melhor as verdadeiras causas do problema, elas não terão força política para agirem no local certo, pelo elevado custo político de tais reformas impopulares. 

 A situação atual da Europa demonstrou que uma união política por si só não é sólida o suficiente para consolidar uma união monetária. Do ponto de vista econômico, o modelo europeu– que teve a participação de figuras como Jacqes Delors e François Miterrand– criou um aparato centralizador que financiou a irresponsabilidade consumista dos governos de países periféricos. É possível eleger qual teria sido o maior equívoco na implantação do Eurossistema?

O maior equívoco talvez tenha sido a composição dos países membros, aceitando-se a adesão de países muito díspares. Isso fere o conceito de área ótima de moeda, que demanda características similares em algumas áreas importantes, tais como competitividade do trabalho, sistema monetário anterior, nível de endividamento público etc. Para piorar a situação, não há mobilidade de mão de obra como deveria na região, o que atua como forte impeditivo ao funcionamento adequado de uma zona de moeda comum. Quando países em condições tão inferiores do ponto de vista econômico como Grécia e Portugal passam a desfrutar de uma união monetária com países como Alemanha e França, seus custos de capitação despencam, permitindo uma bolha de crédito e uma fase de bonança insustentável. A Califórnia pode apresentar indicadores piores que a média americana, mas todos sabem que há uma união fiscal e política nos Estados Unidos, além da ampla mobilidade de capital e trabalho. Já a Grécia e Portugal em relação aos “Estados Unidos da Europa” não contam com as mesmas garantias, e isso só ficou evidente no momento da crise. Antes, e como parte de suas causas, havia a noção de que tudo era um único “país”, o que naturalmente não é verdade.

Apesar da União Européia ter conseguido colocar em prática uma União Monetária, ainda não existe uma unidade fiscal entre os países membros. O quanto isso foi responsável pela crise, na sua visão? Isso é também um “peso morto” para que esses países se livrem dos problemas financeiros atuais?

Sim, uma união monetária, para durar, precisa de uma união fiscal e política, via de regra. Os criadores do euro sabiam disso, mas resolveram colocar a carroça na frente dos bois, contando que uma coisa levaria a outra. Alguns foram sinceros a ponto de assumir que as crises seriam parte desta trajetória, pois forçariam uma união fiscal. O problema é que alemães não se sentem europeus, e sim alemães, tal como gregos, italianos e franceses. Ou seja, não adianta tentar forçar um casamento que não é natural. No afã de impor um casamento, podem acabar com uma separação litigiosa. União fiscal pressupõe a transferência de recursos dos alemães para os gregos e portugueses. Resta combinar isso com os alemães! Não dá para comparar esta situação com aquela existente nos Estados Unidos entre os diferentes estados, por exemplo.

No capítulo 11 do livro “The Tragedy of Euro”, o pensador Austríaco, Philip Bagus, cita a teoria austríaca dos ciclos econômicos para explicar como o aumento do crédito via reservas fracionárias criou um cenário insustentável e também um dilema de difícil resolução, já que, o tratado de Maastrich não prevê cláusulas de saída ou sanções aos países que queiram deixar o Euro. Por ser também um autor austríaco, você acredita que é possível traçar uma “rota de fuga” para essa situação de acordo com essa escola pensamento? Quais meios poderiam ser utilizados para, ao menos, mitigar os problemas financeiros na Europa?

Infelizmente, não existem alternativas fáceis ou isentas de grandes riscos. Os problemas estruturais são enormes, e a interligação por parte do sistema bancário representa uma bomba-relógio no caso de ruptura do euro. Os bancos alemães são muito alavancados e possuem bilhões e bilhões de exposição aos países periféricos. Se existisse alguma “rota de fuga” minimamente segura ou suave, ela teria sido adotada. Não há. As reformas necessárias são extremamente impopulares, os grupos de interesse são muito organizados e querem impedir mudanças que signifiquem perda de privilégios, e a própria fase de ajustes dolorosos pode representar mais déficit fiscal no curto prazo. Politicamente, isso pode ser catastrófico, levando à eleição de messias salvadores, oportunistas com discursos nacionalistas. A Europa entrou, aparentemente, em um beco sem saída. O melhor caminho talvez seja tentar diluir os ajustes no tempo, se as reformas fossem feitas, liberalizando os mercados de trabalho e cortando privilégios e gastos. Mas pode ser ilusório crer nisso, pois tal rota depende da pressão dos mercados, e esta ameaça uma ruptura se a Alemanha não bancar a conta. Quando as taxas de financiamento na Espanha chegam a 6% ao ano, por exemplo, os investidores ficam tensos e falam em ruptura, pressionando o BCE para intervir e a Alemanha para caminhar na direção de união fiscal. Criou-se um verdadeiro esquema “ponzi” de pirâmide na região.

Quando se fala em saída, em geral, os governos europeus têm optado por aceitar calotes parciais, compras de títulos já considerados podres pelo BCE e injeções de liquidez no mercado financeiro. Você acredita que essas medidas, apesar de paliativas e mais focadas no curto prazo, podem realmente ajudar os países a saírem da atual situação?

Não acho que representam solução alguma, mas não vejo muitas alternativas no momento. A Europa conseguiu criar uma situação que realmente parece com o velho ditado popular: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Sem as compras pelo BCE, a zona do euro provavelmente já teria ruído. Mas se isso acontecer, o contágio pelo sistema bancário será enorme, podendo levar a um quadro catastrófico. Por outro lado, ficar injetando recursos em bancos podres só posterga a crise, ampliando seu estrago na frente. O melhor cenário para a Europa parece ser uma “japanização”, com uma década perdida à frente, ou mais. Só que mesmo esse cenário parece improvável, pois em algum momento a Alemanha pode dizer basta para as transferências, ou a tensão social nos países periféricos pode ficar insuportável para o povo e os partidos políticos.

 Ainda sobre o financiamento irresponsável e o consumo, Bagus utiliza o conceito de tragédia dos comuns defendo que os limites de propriedade não estavam muito bem estabelecidos na UEM. É possível afirmar que o Brasil estaria indo rumo a uma crise fiscal, já que, boa parte do sistema financeiro está nas mãos do governo e isso tem sido utilizado para forçar, de certa forma, os bancos privados a baixarem os juros? A falta ou a independência questionável do BC Brasileiro tem haver com essa situação?

A tragédia dos comuns sem dúvida fez parte do arcabouço institucional que levou à crise europeia, pois os gregos e italianos puderam abusar da farra de crédito só porque era assumido por todos que os alemães pagariam a conta. O banco central pode ter sua parcela de culpa, mas o modelo era inviável, pois parte da premissa de que “um tamanho serve a todos”. Ou seja, o BCE controlava os juros olhando para uma região inteira, só que dentro dela havia inúmeras distorções. Os juros poderiam estar altos demais para alguns países, e baixos demais para outros. Os desequilíbrios foram se agravando. Não havia muito que ser feito pelo BCE nesse aspecto. O problema brasileiro é diferente. A má alocação de capital por um sistema bancário concentrado no governo é um dos males que vão cobrar a fatura na frente. A falta de independência do nosso banco central representa outra ameaça, pois sua captura política pode fazer com que as taxas de juros fiquem artificialmente reduzidas para produzir crescimento de curto prazo. Só que o que permite esta farra de crédito brasileira é o cenário externo, basicamente o crescimento chinês impulsionando o preço de nossas commodities e o custo negativo (em termos reais) do capital no mundo, fazendo com que possamos importar poupança externa. Não é o mesmo quadro da Europa, mas os efeitos podem acabar sendo parecidos. Um maná que leva a uma farra de gastos públicos e endividamento, terminando em lágrimas.

*A grafia da palavra “estado” não foi adotada em caixa alta de forma proposital, pois não vejo lógica, do ponto de vista semântico, para empregá-lo com a letra maiúscula;

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About Wagner

Jornalista, trabalha com assessoria de imprensa e comunicação estratégica; escreve artigos de sobre política econômica para o Jornal Imprensa e é articulista jovem do site do Instituto Millenium. Jornal Imprensa: http://jornalimprensa.com.br/ Instituto Millenium: http://www.imil.org.br/ facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002044718065 E-mail: wagneraugusto.vargas@gmail.com

Posted on Maio 26, 2012, in Uncategorized. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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