Rumo ao subprime brasileiro!

Por Wagner Vargas para o jornal Imprensa de 05/05/2012

O governo federal declarou guerra aos altos juros praticados pelos bancos privados, alegando que o lucro das instituições bancárias é altíssimo. De acordo com esse ponto de vista, já é hora desses banqueiros gananciosos dividirem um pouco com o consumidor. No pronunciamento de 1º de maio, Dilma Rousseff afirmou que “tudo que o país produz é fruto do esforço do trabalhador” e  que “não dá para compreender porque um país com um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos do mundo tem os juros tão altos”. Parece tudo muito bonito, mas será mesmo que Dilma está do lado dos trabalhadores?

Só se for do lado oposto! Essas afirmações falaciosas prestam um desserviço ao consumidor, pois incentivam a expansão do crédito de forma irresponsável ao invés de educá-los financeiramente, são uma bomba relógio para economia.  Em primeiro lugar, é desnecessário inventar lorotas para bajular  os homenageados de uma data comemorativa. Os trabalhadores são muito importantes para gerar a prosperidade de um país, mas estão longe de ser o único fruto da riqueza de uma nação. Foi pensando dessa forma míope, ignorando os riscos e a importância do empreendedor na economia, que Marx criou a tal “teoria” da mais-valia.

Para Marx, a diferença não paga pelo empresário ao trabalhador era uma exploração. Se tal auto-suficiência do trabalho fosse verdadeira, bastaria dar adeus ao chefe e voltar para casa para produzir “riqueza”, todos os trabalhadores seriam ricos. Não é o trabalho por si só que gera a riqueza, mas sim como homem vale-se dele para alocar os recursos disponíveis e satisfazer a demanda dos outros com maior qualidade ao menor preço.

Por que os juros não podem ser decididos numa “canetada”?

A taxa de juros que é algo essencial em um sistema econômico, pois está ligada à alocação de capital. A importância de ter um bem hoje é maior do que tê-lo no futuro, portanto, a renúncia de utilizá-lo agora, tem um preço. Para quê alguém iria passar esse bem a outrem sem ganhar nada com isso? Sem os juros, os credores não teriam o interesse de fazer empréstimos. Ademais, corre-se o risco de calote. Ou seja, uma taxa de juro não é determinada numa canetada do banqueiro, nem do governo— ou não deveria ser—, mas sim, pelos riscos da transação em função do tempo. No Brasil, as taxas são muito altas, mas a insegurança jurídica, a inadimplência, a burocracia, os impostos e os compulsórios também são muito altos e, para “ajudar”, o nível de poupança é muito baixo.

Aqui, tudo é muito caro porque se paga o imposto do imposto e isso a presidente se esqueceu de enfatizar em seu discurso. Por acaso, quem está por trás desses problemas estruturais é o governo e quem perde não só os banqueiros, mas também o consumidor que recebe esses custos de forma indireta. Se um banqueiro pudesse colocar a taxa juros ao preço que bem entendesse, as pessoas buscariam crédito mais barato na concorrência e foi justamente esse fator que pressionou os bancos privados a baixarem as taxas porque o governo ordenou aos bancos públicos que baixassem  suas taxas de juros. O problema é que isso foi feito de forma artificial ,pois cerca de 40% do setor financeiro do Brasil está sob o controle do Estado.

Esse cenário é muito perigoso, já que empresários erram, mas de forma isolada, pois as informações estão pulverizadas no mercado e cada um deles age de acordo com as próprias expectativas. Por isso que um único agente não deve ter o poder de influenciar todos os outros no mercado. Pior ainda, se esse agente for o Estado. Esse órgão não só é ineficiente para gerar lucros, como também possui o monopólio da moeda e pode, por meio da inflação, criar um cenário de falsa prosperidade e levar os empresários a exagerem nas expectativas, errando juntos,ou seja, gerando uma crise. Vale lembrar que a crise de 2008 surgiu por empréstimos para pessoas que não podiam pagar por eles, já que havia uma propensão ao consumo de forma irresponsável.

Para quem caiu no conto da “desregulamentação” como causa da crise do subprime, vale observar a postura do governo Norte americano e do Fed (Banco Central de lá) em relação aos empréstimos, reduzindo a taxa básica de juros de forma artificial. A ideia deles era fomentar aumento consumo e do crescimento, obrigando os bancos a concederem um percentual de empréstimos a pessoas de baixa renda a cada agência bancária aberta por meio da lei chamada “Community Reinvestiment Act”.

As pára-Estatais Fanie Mae e Freddie Mac, absurdamente alavancadas, foram essenciais para fomentar esse crédito sem lastro no setor imobiliário, que foi o epicentro da crise. Em se tratando de incentivo ao consumo irresponsável e manipulação dos juros de forma artificial, alguma semelhança com as ações do governo e do BC daqui?  Essa frase do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ajuda a responder essa questão: “O importante é que haja financiamento barato para a produção de onde venha não importa”.

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About Wagner

Jornalista, trabalha com assessoria de imprensa e comunicação estratégica; escreve artigos de sobre política econômica para o Jornal Imprensa e é articulista jovem do site do Instituto Millenium. Jornal Imprensa: http://jornalimprensa.com.br/ Instituto Millenium: http://www.imil.org.br/ facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002044718065 E-mail: wagneraugusto.vargas@gmail.com

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