A “Privataria” do conhecimento e o “denuncismo” !


Por Wagner Vargas para o Jornal Imprensa de 28/01/12

 Nos últimos meses, o livro “Privataria Tucana” do Jornalista Amaury Ribeiro Junior se propôs a discutir as privatizações dos anos 90, que começaram no governo Collor e tiveram continuidade com FHC. Além sucesso nas vendas, a obra e o autor receberam elogios– graças aos inéditos documentos, anexos ao livro, que descreveriam esquemas de corrupção– e a suposta carreira “imaculada” de Amaury, segundo afirmou seu colega de emissora, Paulo Henrique Amorim. Até aonde eu sei, documentos de 10 anos atrás em que qualquer cidadão consegue em cartórios ou juntas comerciais, não são inéditos. Soa estranho chamar Amaury de imaculado, levando em conta que ele já foi indiciado pela Polícia Federal por quatro crimes: violação de sigilo fiscal; corrupção ativa; uso de documentos falsos e oferta de vantagem a testemunha. Para completar, o autor compôs a equipe do PT na campanha presidencial, por acaso, partido adversário do PSDB, o mesmo que recebe o foco das críticas contidas no livro. Esses  fatos demonstram que Amaury  talvez não tenha tanta credibilidade assim para falar sobre o tema.

   Não sou eleitor de Serra, ao contrário, Daniel Dantas, Ricardo Sérgio Oliveira e outros têm muito o que explicar à justiça e, nesse ponto, o próprio político, se tiver algum indício de participação em irregularidades,  deve responder e , caso seja culpado, deve ser punido. Porém, Amaury deixa clara sua intenção de atacar Serra e sem provas contra o mesmo. Ademais, Amaury vale-se do livro para defender-se dos crimes em que foi indiciado. Já em relação à privatização, o mínimo que se espera de um bom jornalista, além do rigor na apuração de dados, é um vasto conhecimento sobre o assunto a ser abordado, seja para escrever uma matéria, um artigo ou quem dirá em um livro. É muito simples: se o jornalista não compreendeu o assunto, imaginem o coitado do leitor, então?

  Apesar de valer-se de muitos documentos que podem, felizmente, incriminar alguns figurões, o jornalista confunde personagens supostamente corruptos com a privatização em si, descrevendo- a como um ato que está sempre diretamente associado à corrupção e à lavagem de dinheiro. Isso não só faz parte de uma ingenuidade sem provas, como deixa clara a incompreensão do tema, por parte do autor, que, muito contaminado por ideologia, produziu um material que está longe de ser um estudo– os equívocos podem não estar nos documentos, mas estão nas conclusões do autor, boa parte delas são insustentáveis. As privatizações da era FHC, apesar de terem trazido muitas melhorias e desoneração ao Estado em alguns casos, contemplam erros e parte deles estão relacionados ao inchaço do setor público. A responsabilidade da opinião pública nesses equívocos é grande, pois a mesma tem se omitido em debates sobre o tema e quando resolve participar das discussões, baseia-se em moralismos nacionalistas. Isso advém de uma cultura “Desenvolvimentista” que, desde os anos 30, vem deixando os cofres públicos à míngua e com empresas públicas com uma produtividade risível e isso o livro não aborda.

   Independente do ponto de vista, privatização é um tema que precisa ser discutido, mas de uma forma inteligente, pois é algo muito presente em nossa realidade. Felizmente ou não, o Estado não tem recursos para manter determinadas empresas sem ter de deixar investimentos em áreas importantes como educação e saúde, tão precárias em nosso país. Sem contar o peso da carga tributária que só aumenta sobre os cidadãos. Diferente do que afirma o senso comum, o Estado brasileiro está muito presente, ele não só promove subsídios, via BNDES (a valores abaixo do mercado)  para empresas interessadas em adquirir ativos públicos como continua a ser o maior acionista de boa parte delas. Os estadistas brasileiros adoram ditar regras internas para empresas que já são privadas, como, por exemplo, o presidente da Vale, que foi escolhido ,arbitrariamente, por Dilma Roussef. Para quem acredita que isso possa ser positivo, precisa pesquisar melhor, se essas ingerências políticas estão sendo utilizadas em prol do país ou a favor dos amigos de nossos chefes de Estado e seus respectivos partidos. Esse questionamento se estende também para como estão sendo geridas as empresas estatais, em relação ao inchaço de funcionários, nepotismo, corrupção e para os supostos laços que tem se criado entre alguns empresários e políticos, que têm forjado licitações e favorecido o tráfico de influência. A revista The economist dessa semana fez uma reportagem em que descreve não só a ascensão desse “Capitalismo de Estado” no Brasil, como  o aumento da presença do setor público na economia– mesmo com as privatizações– o que tem criado parasitas que apenas oneram o erário.

   A idéia é resgatar um debate consciente sobre o tema e, para quem tiver  interesse, o livro “Capitalismo de laços” do pesquisador do IBMEC Sérgio Lazzarini, PhD em Administração pela Washington University, traz discussões com muita lucidez sobre o assunto, abordando imperfeições e melhorias trazidas por essa era das privatizações. Quanto mais as pessoas sustentarem suas opiniões em obras sensacionalistas, “denuncistas”, com forte apelo ideológico e que trazem documentos descontextualizados, como “Privataria tucana”, não só haverá miopia em discussões sobre políticas públicas, mas também estamos condenados a repetir os mesmos erros do passado. Parabéns Amaury, além de prestar um desserviço à opinião pública, você instaurou a privataria do conhecimento!

Anúncios

About Wagner

Jornalista, trabalha com assessoria de imprensa e comunicação estratégica; escreve artigos de sobre política econômica para o Jornal Imprensa e é articulista jovem do site do Instituto Millenium. Jornal Imprensa: http://jornalimprensa.com.br/ Instituto Millenium: http://www.imil.org.br/ facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002044718065 E-mail: wagneraugusto.vargas@gmail.com

Posted on Janeiro 28, 2012, in Uncategorized. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: